domingo, 15 de abril de 2012

Cervejando. Degusto, logo existo.

Um alemão em visita ao Brasil, vai a um bar na companhia de três amigos brasileiros.

Os brasileiros pedem uma Brahma uma Bohêmia e uma Original. O alemão assistindo a cena, pede ao garçom uma coca-cola.

Os amigos sul americamos estranham e perguntam por que ele pediu um refrigerante, e o alemão respondeu: “Ora, se vocês não vão beber cerveja, eu vou acompanha-los “.

Essa brincadeira, é para começar um assunto que pode ser extenso à medida que pensamos além dos comerciais de TVs quando o assunto é cerveja.

Mas afinal, existe uma verdade sobre a cerveja ? 

O que é mais relevante, o gosto individual ou o conhecimento técnico sobre as propriedades e os ingredientes desta bebida? 

Ou resumindo, existem respostas dogmáticas para essas perguntas?

Já que não tenho respostas absolutas, vou começar essa “brincadeira” com mais perguntas.

Se por acaso você tivesse R$ 100,00 para gastar exclusivamente com cerveja. Que caminho você escolheria?

Compraria um engradado de uma cerveja produzida em massa, arrematando algumas latinhas para fechar a conta, ou se permitiria um tempo de dedicação para escolher produtos com procedência reconhecida mundo a fora, onde a tradição dos processos produtivos e os ingredientes são celebrados a longos das gerações e dos séculos ?

Se essa pergunta fosse feita para o pensador John Stuart Mill, (século XIX) ele responderia prontamente: “A pessoa deveria levar uma vida melhor aprendendo a apreciar as qualidades mais admiráveis das coisas, em vez de acumular grandes quantidades de prazeres de baixa qualidade”.

Não tenho a pretensão de resolver os dilemas da humanidade, mais posso exercitar minha coragem para jogar minha opinião.

Uma vez eu li que a cerveja era um “Lubrificante social”, uma bela e resumida descrição da ideia que o filósofo grego Plutarco, do século I já tinha posicionado: “A finalidade da bebida é alimentar e aumentar a amizade”.

Essa ideia de finalidade da bebida, também pode ser ancorada sobre outro pensamento chamado “As lentes da cerveja”, onde é discutido que muitas pessoas, após alguns copos, percebem seus parceiros de bebida mais belos. 

Vou lembrar a opinião de um contemporâneo, o Professor Pasquale, apresentador do programa “Nossa língua portuguesa” da TV Cultura, quando perguntado por um telespectador qual forma de comunicação era mais adequada em nosso dia-a-dia. O professor respondeu sabiamente: “O estilo de comunicação da língua portuguesa pode ser comparada a uma roupa que você escolhe de acordo com o ambiente que vai frequentar”.

Acho que a uma parte da “Verdade sobre a cerveja” possa ser balizada nesse contexto. Vamos brincar com a imaginação.

Sexta feira a tarde, verão. Após uma semana torturante de extremos físicos e psicológicos. Final de mês, onde se presume pouco dinheiro no bolso. Amigos se reúnem num bar para conversar aqueles assuntos que poderem ultrapassar o dia, avançando a madrugada. 

Qual seria a cerveja indicada? Certamente uma cerveja leve, provavelmente mais barata, que possa ser apreciada sem culpa (no bolso)  entre as horas, as risadas e a amizade.

Agora, mudando o contexto. Inverno, você está com o seu par num restaurante. A comida certamente será consistente como uma massa ou carne, pouca quantidade de bebida será posta à mesa antes do prato principal. Parece fácil imaginar uma cerveja encorpada, colarinho cremoso e talvez bem lúpulada com teor alcoólico em destaque, como certas bebidas do velho mundo tem o passaporte liberado para aterrissar sem restrições e fazer companhia à refeição.

Se continuarmos por essa linha pensamento, vamos determinar que não existe uma cerveja suprema, mas sim a convidada adequada para cada evento da vida.

E se por acaso você não gostar de cerveja?  Segundo Charles Baudelaire “ Um homem que só bebe água tem um segredo a esconder de seus semelhantes”. Ainda o meu professor de Markenting Mauro Bicalho, numa conversa informal num restaurante, declarou “Eu não confio em quem não bebe”.

Então combinado, caso você aprecie cerveja, vamos considerar que não exista uma cerveja “perfeita”, vamos analisar outra questão.  Gosto se discute?

Se eu pedisse uma indicação de uma boa cerveja. Você poderia apontar uma marca baseada na preferência do seu circulo de amizades. Então isso poderia ser traduzido como “A cerveja X é boa por que as pessoas gostam dela”.

Se analisarmos o consumo em massa, investimentos em produtividade (preço) e propaganda, é legítimos concluir que uma boa cerveja seja a mais conhecida dentro de um certo padrão de preço e consumo.

Qualquer cerveja pode ser ótima, se bebermos após quarenta dias perdidos no deserto. Como sempre, vale o contexto.

Se você reportar algo parecido como “A cerveja X é ótima”. Essa declaração será semelhante a algo autobiográfico, e certamente vai revelar um prazer que obteve no momento que degustou a cerveja “X”, e isso pode ser algo muito individual.

Não é preciso fazer um curso sobre cerveja para classifica-la. Porém é bem vindo alguma experiência anterior e algum vocabulário para poder avalia-la e transmitir a experiência ao se degustar uma cerveja.

Mas calma ! Antes de me chamar de  “chato” com relação à cerveja, é inteligente lembrar que parte da beleza da cerveja é sua bagagem, carregada de dez mil anos e que muitos apreciadores do mundo já dedicaram belas palavras a essa bebida.

No blog já defini a cerveja várias vezes (sempre citando os autores), mas agora vou transcrever parte da Lei da Pureza Alemã de 1516 . Seu nome original em alemão é Reingheitsgebot.

                               “A cerveja é uma bebida feita de cevada e/ou trigo, geralmente maltada. Quando os grãos maltados são amassados com água quente formando um mingau, as enzimas naturais contidas nesses grãos quebram o amido, transformando-o em açucares. Estes são removidos dos grãos pela água, criando um líquido açucarado chamado de mosto. O mosto é fervido, geralmente com as flores da planta humulus lupulus – o lúpulo – que proporciona o amargor e o aroma, e depois resfriado. Então se introduz a levedura, que fermenta o mosto, transformando-o em cerveja. A partir deste ponto, ela é envelhecida por um período – algo entre muitos dias a um ano inteiro – então é colocada numa garrafa, lato ou barril.”

Aliás, quando conto a algum amigo que produzo cerveja artesanal, a primeira impressão que fica no ar é que sou um bebedor contumaz, mas na verdade, todo o trabalho que eu, e meu gratos amigos temos, gira em torno da experimentação, gastronomia e amizade.

As vezes conversamos horas, com uma única garrafa sobre a mesa. Produzir cerveja na verdade pouco tem relação com entornar canecos horas a fio e esta mais próximo de alcançar um tempo retroativo da história através dos alimentos.

Mas, voltando ao assunto, se imaginarmos que alguns anos após o Brasil ser “invadido” pelos portugueses, os alemães se preocupavam em definir o que era “Cerveja”. Evidentemente qualquer produtor poderia fazer algo diferente, porém no rótulo não teria a identificação de cerveja.

Aqui temos alguns exemplos da denominação de alguns produtos. Vamos então a um clássico, o “Leite de soja”.

Ora, concordem comigo, soja não dá leite. Alias, o que leva as pessoas consumirem o leite de soja (inclusive eu) é a certeza que neste produto a única substância que não existe é leite (lactose).Soja não tem teta !  

O mesmo pode ocorrer com cerveja. Muito é produzido no mercado e vendido como cerveja, porém não seguem padrões de produção, e não deveriam ser chamados como tal.

Quer outro exemplo ? Chocolate ao leite. Pela legislação  brasileira o alimento só pode ser chamado de chocolate se conter ao menos 33% de cacau, caso contrario deve ser chamado de achocolatado.

Desta forma é justo não criticar determinada bebida, pois seria o caso de não classifica-la como cerveja, talvez como bebida a base de cevada, com aditivos para aroma, sabores e cores, com conservantes químicos necessários para embalagem, distribuição em armazenagem em grande escala.

Considerando esse cenário, sofreríamos menos quando experimentarmos esse tipo de bebida.

De qualquer modo, vale o prazer em relaxar com uma cerveja, na companhia dos amigos e das pessoas que gostamos.

Prost !

domingo, 8 de abril de 2012

Cerveja filosófica. Iraque e Marco Polo.


A cerveja nada mais é do que “um purê de cevada acidentalmente fermentada”.

Assim reluziu a aura da bebida que conhecemos hoje, mas mesmo depois de séculos de experimentos e alquimias a criatividade dos mestres cervejeiros parece não ter fim.
 
Cervejas pretas e claras e todas as matizes entre elas, fortes , fracas, lupuladas ou doces.

Com todas essas propriedades, como podemos definir um estilo de cerveja? Se cada estilo pudesse carregar uma posição na tabela periódica, poderiam ser chamadas todas de cervejas naturais?

Seria possível filosofar entre um copo e outro na medida que percorremos as épocas em que foram criadas, a influencia da história e como cada matéria prima era recuperada em seu tempo e como o poder do Estado, Política e a Igreja  imprimiram um registro étnico-temporal transportando experiências às papilas gustativas através dos séculos e gerações.

Se pensarmos por esse caminho, seria a biblioteca o local de se refrescar com a cerveja ao invés do boteco?

Se você achar complicado tudo isso, vai lá um leve exemplo.

O trigo, a base da famosa Weissbier, é o grão mais cultivado do mundo, seguido pelo milho e pelo arroz respectivamente.

Os primeiros registros do cultivo do trigo apareceram no Oriente Médio na região da Síria, Jordânia, Turquia e Iraque.

O Cravo da Índia, uma especiaria utilizada na culinária tem seu local de nascimento atribuído a Indonésia.

Nos dias de hoje, temos que agradecer Marco Polo por ir buscar esse tempero e apresentar a Europa, e a partir daí se popularizar mudo a fora.

Essa história toda foi a introdução de nosso mais novo experimento a “WeizenClove”, a cerveja de trigo com aroma de Cravo.

Cerveja leve, com parentesco distante daquelas da Baviera, feita para matar a sede num dia de calor, reservando uma surpresa aromática no final, brincando com o paladar e o olfato com uma lembrança presente de cravo.

Bonita, o suor do cereal bronzeado pelo cravo, repousada no copo adequado das irmãs genuínas de trigo, mostra-se delicada ao mesmo tempo indômita querendo passear através das bolhas quase vinificadas evoluindo da base do copo até a borda onde se reúnem e formam um colarinho perfumado de boas vindas.




Família Jahuer: WiezenClove, Kolsh e WizenFranz.

Foi uma alegre surpresa desfrutar do resultado e o nascer de uma expectativa de superação.


PROST !