Um alemão em visita ao Brasil, vai a um bar na companhia de
três amigos brasileiros.
Os brasileiros pedem uma Brahma uma Bohêmia e uma Original.
O alemão assistindo a cena, pede ao garçom uma coca-cola.
Os amigos sul americamos estranham e perguntam por que ele
pediu um refrigerante, e o alemão respondeu: “Ora, se vocês não vão beber
cerveja, eu vou acompanha-los “.
Essa brincadeira, é para começar um assunto que pode ser
extenso à medida que pensamos além dos comerciais de TVs quando o assunto é
cerveja.
Mas afinal, existe uma verdade sobre a cerveja ?
O que é mais relevante, o gosto individual ou o conhecimento
técnico sobre as propriedades e os ingredientes desta bebida?
Ou resumindo, existem respostas dogmáticas para essas
perguntas?
Já que não tenho respostas absolutas, vou começar essa
“brincadeira” com mais perguntas.
Se por acaso você tivesse R$ 100,00 para gastar
exclusivamente com cerveja. Que caminho você escolheria?
Compraria um engradado de uma cerveja produzida em massa,
arrematando algumas latinhas para fechar a conta, ou se permitiria um tempo de
dedicação para escolher produtos com procedência reconhecida mundo a fora, onde
a tradição dos processos produtivos e os ingredientes são celebrados a longos
das gerações e dos séculos ?
Se essa pergunta fosse feita para o pensador John Stuart
Mill, (século XIX) ele responderia prontamente: “A pessoa deveria levar uma
vida melhor aprendendo a apreciar as qualidades mais admiráveis das coisas, em
vez de acumular grandes quantidades de prazeres de baixa qualidade”.
Não tenho a pretensão de resolver os dilemas da humanidade,
mais posso exercitar minha coragem para jogar minha opinião.
Uma vez eu li que a cerveja era um “Lubrificante social”, uma
bela e resumida descrição da ideia que o filósofo grego Plutarco, do século I
já tinha posicionado: “A finalidade da bebida é alimentar e aumentar a amizade”.
Essa ideia de finalidade da bebida, também pode ser ancorada
sobre outro pensamento chamado “As lentes da cerveja”, onde é discutido que
muitas pessoas, após alguns copos, percebem seus parceiros de bebida mais
belos.
Vou lembrar a opinião de um contemporâneo, o Professor
Pasquale, apresentador do programa “Nossa língua portuguesa” da TV Cultura,
quando perguntado por um telespectador qual forma de comunicação era mais
adequada em nosso dia-a-dia. O professor respondeu sabiamente: “O estilo de
comunicação da língua portuguesa pode ser comparada a uma roupa que você escolhe
de acordo com o ambiente que vai frequentar”.
Acho que a uma parte da “Verdade sobre a cerveja” possa ser
balizada nesse contexto. Vamos brincar com a imaginação.
Sexta feira a tarde, verão. Após uma semana torturante de
extremos físicos e psicológicos. Final de mês, onde se presume pouco dinheiro
no bolso. Amigos se reúnem num bar para conversar aqueles assuntos que poderem
ultrapassar o dia, avançando a madrugada.
Qual seria a cerveja indicada? Certamente uma cerveja leve,
provavelmente mais barata, que possa ser apreciada sem culpa (no bolso) entre as horas, as risadas e a amizade.
Agora, mudando o contexto. Inverno, você está com o seu par
num restaurante. A comida certamente será consistente como uma massa ou carne,
pouca quantidade de bebida será posta à mesa antes do prato principal. Parece
fácil imaginar uma cerveja encorpada, colarinho cremoso e talvez bem lúpulada
com teor alcoólico em destaque, como certas bebidas do velho mundo tem o
passaporte liberado para aterrissar sem restrições e fazer companhia à
refeição.
Se continuarmos por essa linha pensamento, vamos determinar
que não existe uma cerveja suprema, mas sim a convidada adequada para cada
evento da vida.
E se por acaso você não gostar de cerveja? Segundo Charles Baudelaire “ Um homem que só
bebe água tem um segredo a esconder de seus semelhantes”. Ainda o meu professor
de Markenting Mauro Bicalho, numa conversa informal num restaurante, declarou
“Eu não confio em quem não bebe”.
Então combinado, caso você aprecie cerveja, vamos considerar
que não exista uma cerveja “perfeita”, vamos analisar outra questão. Gosto se discute?
Se eu pedisse uma indicação de uma boa cerveja. Você poderia
apontar uma marca baseada na preferência do seu circulo de amizades. Então isso
poderia ser traduzido como “A cerveja X é boa por que as pessoas gostam dela”.
Se analisarmos o consumo em massa, investimentos em
produtividade (preço) e propaganda, é legítimos concluir que uma boa cerveja
seja a mais conhecida dentro de um certo padrão de preço e consumo.
Qualquer cerveja pode ser ótima, se bebermos após quarenta
dias perdidos no deserto. Como sempre, vale o contexto.
Se você reportar algo parecido como “A cerveja X é ótima”.
Essa declaração será semelhante a algo autobiográfico, e certamente vai revelar
um prazer que obteve no momento que degustou a cerveja “X”, e isso pode ser
algo muito individual.
Não é preciso fazer um curso sobre cerveja para classifica-la.
Porém é bem vindo alguma experiência anterior e algum vocabulário para poder
avalia-la e transmitir a experiência ao se degustar uma cerveja.
Mas calma ! Antes de me chamar de “chato” com relação à cerveja, é inteligente
lembrar que parte da beleza da cerveja é sua bagagem, carregada de dez mil anos
e que muitos apreciadores do mundo já dedicaram belas palavras a essa bebida.
No blog já defini a cerveja várias vezes (sempre citando os
autores), mas agora vou transcrever parte da Lei da Pureza Alemã de 1516 . Seu
nome original em alemão é Reingheitsgebot.
“A
cerveja é uma bebida feita de cevada e/ou trigo, geralmente maltada. Quando os
grãos maltados são amassados com água quente formando um mingau, as enzimas
naturais contidas nesses grãos quebram o amido, transformando-o em açucares.
Estes são removidos dos grãos pela água, criando um líquido açucarado chamado
de mosto. O mosto é fervido, geralmente com as flores da planta humulus lupulus – o lúpulo – que
proporciona o amargor e o aroma, e depois resfriado. Então se introduz a
levedura, que fermenta o mosto, transformando-o em cerveja. A partir deste
ponto, ela é envelhecida por um período – algo entre muitos dias a um ano
inteiro – então é colocada numa garrafa, lato ou barril.”
Aliás, quando conto a algum amigo que produzo cerveja
artesanal, a primeira impressão que fica no ar é que sou um bebedor contumaz,
mas na verdade, todo o trabalho que eu, e meu gratos amigos temos, gira em
torno da experimentação, gastronomia e amizade.
As vezes conversamos horas, com uma única garrafa sobre a
mesa. Produzir cerveja na verdade pouco tem relação com entornar canecos horas
a fio e esta mais próximo de alcançar um tempo retroativo da história através
dos alimentos.
Mas, voltando ao assunto, se imaginarmos que alguns anos após o Brasil ser “invadido”
pelos portugueses, os alemães se preocupavam em definir o que era “Cerveja”.
Evidentemente qualquer produtor poderia fazer algo diferente, porém no rótulo
não teria a identificação de cerveja.
Aqui temos alguns exemplos da denominação de alguns
produtos. Vamos então a um clássico, o “Leite de soja”.
Ora, concordem comigo, soja não dá leite. Alias, o que leva
as pessoas consumirem o leite de soja (inclusive eu) é a certeza que neste
produto a única substância que não existe é leite (lactose).Soja não tem teta !
O mesmo pode ocorrer com cerveja. Muito é produzido no
mercado e vendido como cerveja, porém não seguem padrões de produção, e não
deveriam ser chamados como tal.
Quer outro exemplo ? Chocolate ao leite. Pela
legislação brasileira o alimento só pode
ser chamado de chocolate se conter ao menos 33% de cacau, caso contrario deve
ser chamado de achocolatado.
Desta forma é justo não criticar determinada bebida, pois
seria o caso de não classifica-la como cerveja, talvez como bebida a base de
cevada, com aditivos para aroma, sabores e cores, com conservantes químicos necessários
para embalagem, distribuição em armazenagem em grande escala.
Considerando esse cenário, sofreríamos menos quando
experimentarmos esse tipo de bebida.
De qualquer modo, vale o prazer em relaxar com uma cerveja,
na companhia dos amigos e das pessoas que gostamos.
Prost !